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03 fevereiro 2017

Professora monta uma biblioteca em sua casa para ajudar alunos

Leitura é a chave, o mundo, o fruto. E “quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso” já dizia Melanie Klein uma das maiores psicanalistas da história. Assim, é o constante ato de ler, o fruto que alimenta o cérebro e possui o poder de transformar o homem e os que estão a sua volta. Afinal, de maneira assertiva afirmou Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.
Neste 2017 será realizada a 12° Bienal Internacional do Livro no Ceará, no Centro de Eventos do Ceará de 14 a 23 de abril e, o Blog Entre Ideias, aproveitou para entrevistar a professora alfabetizadora, Neide Castelo, Licenciada em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), com experiências no campo da educação e no processo de alfabetização e incentivo a pequenos leitores. De forma descontraída e com voz emocionada, compartilha conosco sua visão a respeito da importância do exercício cotidiano da leitura na formação profissional e humana, além de suas paixões, experiências com o mundo das letras e seu projeto de realização pessoal que é a criação de uma minibiblioteca.

Confira abaixo a entrevista.

ENTRE IDEIA – Quando aconteceu seu primeiro contato com o mundo da leitura?
NEIDE CASTELO  – O meu primeiro contato com o mundo das letras foi um pouco “tarde”. Na época, devido ao lugar onde minha família morava, o acesso a escola não era tão fácil e, mesmo assim, apenas crianças a partir dos 09 anos de idade em diante poderiam frequentar a escola.Sempre fui curiosa no sentido de desvendar algo. Quando minhas irmãs saiam para ir à escola, eu ficava cruzando os dedos para que elas chegassem logo, somente para eu pudesse pegar seus materiais e fingir que estava lendo. Deliciava-me com as letras e as imagens, até que chegasse uma delas e tomassem das minhas mãos todo o seu material e, às vezes, chegavam a me prometer chineladas. Assim, percebendo minhas inquietações, meus pais falaram com a professora e, com 08 anos de idade, entrei na escola, para minha alegria .


EI – Ao longo de sua vivência educacional, que experiência marcou sua trajetória enquanto professora alfabetizadora?
NEIDE CASTELO – Aos 15 anos de idade senti o desejo de praticar um ato que para mim foi uma grande marca e, ao mesmo tempo, o pontapé da jornada que estava por vir. Na época, eu ainda estudava. Pedi que a vizinha me deixasse ajudar a sua filha a descobrir o mundo das letras. Era uma criança de quatro anos, mas, era a minha companhia em meus momentos de leitura. Ela gostava de ouvir e recontar as histórias. Ela recontava do jeitinho dela e aquilo me enfeitiçava. Foi brincando que eu a alfabetizei dentro de um curto período de 45 dias. Foi um momento mágico. Tanto para mim como para ela. Elizangela Souza Paiva, conhecida como Zanzan foi à primeira criança que alfabetizei. O ambiente era a sala de jantar dos meus pais, utilizando apenas lápis, borracha, papel de embrulhar usado como caderno e recortes de revistas e livros velhos.

EI – Você possui um projeto em andamento que é a criação de uma minibiblioteca. Como que ela funciona?
NEIDE CASTELO – Falar da minha minibiblioteca é algo muito gratificante. Ela é parte de um projeto de incentivo a leitura. Ela é composta por livros dos mais variados gêneros literários voltados para crianças e adultos. A ideia da minibiblioteca surgiu da vontade de ter um pequeno acervo de livros para contação de histórias para as turmas de 05 e 06 anos de idade, então, fiz um acordo com minhas crianças para fazermos uma troca de livros. Como eu tinha alguns livros em minha estante eu dei para algumas crianças do reforço e, em contrapartida, elas ficariam na responsabilidade de conversar com os pais e escolherem em seus acervos alguns de seus livros que elas não tivessem mais usando, foi então que, a partir desta experiência surgiu a ideia de montar esse projeto. Mas, no momento ele está designada a atender somente as crianças da minha salinha de reforço escolar.

EI – O que falta para que esse projeto ultrapasse as paredes de sua sala de reforço e ganhe abrangências maiores?
NEIDE CASTELO – Devido ao objetivo inicial da minibiblioteca que é atender as crianças que recebo no reforço escolar com dificuldades em ler e que, também, não possui nenhum incentivo a leitura em casa. Mas, isso é algo a se pensar futuramente, quem sabe eu possa mudar de ideia e levar a minibiblioteca a outras pessoas.

EI – Como você avalia a relação dos jovens com a leitura na sociedade contemporânea?
NEIDE CASTELO – Sem generalizar, percebo que, atualmente, o ato de ler é quase que extinto, e os jovens que ainda o tem, substitui o manuseio do livro por leituras digitas. É claro que há as exceções, mas há uma grande substituição.

EI – “Uma sociedade é formada por homens e livres”. Em que sentido a leitura é uma forma de mediação do homem com a sociedade?
NEIDE CASTELO – Partindo do princípio de que, quem ler absorve mais conhecimento e, consequentemente, promove seu crescimento enquanto homem e profissional, o que posso definir é: a leitura é o fator primordial no processo de mediação do ser humano com a sociedade em que ele está inserido.

EI – Segundo a pesquisa publicada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), a leitura é um hábito de 56% da população brasileira. Avançamos apenas 6% comparado a pesquisa anterior divulgada em 2011. Portanto, de que forma esse baixo percentual influencia na forma e nas atitudes da sociedade?
NEIDE CASTELO – Quem ler pouco sabe pouco, conhece pouco. Sendo assim, a acomodação, a alienação e a diminuição da autoestima, passa a instala-se na sociedade fazendo com que a humanidade cresça dentro de um contexto de aquietação e comodismo. Pessoas paradas que não sabem lutar, nem tampouco, reivindicar. É sempre dizendo sim, mesmo que as coisas estejam erradas.

EI – Em meio a um mundo cada vez mais virtualizado, como o contato e o hábito da leitura direto com os livros pode ser retomado?
NEIDE CASTELO – Penso que a família e a escola possuem um papel fundamental na retomada e no resgate do ato da leitura. Essas comunidades devem mostrar para os pequenos ou grandes leitores que a leitura digital não se compra ao modo de leitura tradicional. O pegar, tocar, o simples cheirinho do livro nos leva a um palco onde o cenário é o que a mente cria naquele momento.

EI – Os avanços tecnológicos podem romper ou terminar a leitura tradicional dos livros?
NEIDE CASTELO – Acredito que os avanços tecnológicos, sem dúvidas, em se tratando de internet, proporcionou mudanças e influenciou bastante no que diz respeito à troca de leituras tradicionais pela leitura digital, porém, neste caso, ainda é complexo afirmar que uma ação substitui a outra. Até porque querendo ou não, existem pessoas ecléticas.

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