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03 abril 2016

GUAIUBA - Sem conservação, edificações antigas ameaçam desaparecer

Guaiuba. De longe não há como passar despercebido por quem passa pela CE-060, no distrito de Água Verde, neste município, localizado na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Um antigo casarão se impõe pela ostentação da construção e pelo contraste com a árida paisagem natural.
De perto, há de se lamentar pela degradação do prédio: sem portas, janelas, com muitos resíduos e as paredes repletas de pichações. Entre a admiração e perplexidade a velha casa, que já foi sede de uma fazenda, guarda também seus mistérios. Um dos mitos é de que mal-assombrada. 
Verdade ou não, o antigo casarão está prestes a ser derrubado, emblemático de uma situação recorrente de uma normal comportamental, como observa o arquiteto José Sales, valores significativos para a sociedade. 
Os proprietários remanescentes, da família Cavalcante, atualmente formada pelos irmãos Waldir e Sílvia, manifestaram interesse apenas pelo terreno, segundo informou José Sales. Pela imponência da edificação, que remete a um passado de glória de seus moradores e pela ostentação da casa, dividida em dois pavimentos, o local já foi imaginado para ser um portal para o Maciço do Baturité.
O próprio arquiteto chegou a ventilar essa ideia em 2003. De lá para cá, não foi possível levar adiante. Uma outra proposta seria construir um museu vivo, onde as pessoas pudessem conhecer a história da região, antiga produtora de café e uma das mais prósperas do Ceará até meados da década de 1940. Uma terceira proposta seria para servir como um equipamento da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), instalada em Redenção, mas com extensões em Acarape e no entorno do Maciço de Baturité.

Funcionalidade 

Para José Sales, em qualquer destino a ser dado, dentre essas três propostas, havia condições materiais para que fossem exequíveis. O fundamental, conforme salientou, era que houvesse funcionalidade. Já as intervenções que poderiam ser provocadas para preservar a edificação são exequíveis mas não têm saído do papel, quer por dificuldades financeiras, quer pela mudança de gestões.
"Trata-se de uma casa que está há mais de dez anos abandonada. Tem um grande valor histórico, porque foi sede de uma fazenda por um período importante dentro do contexto da riqueza local", diz.

Inspiração 

Para José Sales, o valor arquitetônico não encontra comparação, por exemplo, com o casario da arquitetura colonial de Ouro Preto e Mariana, que fazia referência à sede das Minas Gerais, mas que deve ser preservada, enquanto o tempo tem-se encarregado de causar danos na postura original. Um desses foi um desvio feito na área urbana de Guaiúba para corrigir o traçado da estrada. 
Contudo, José Sales ressalta que a questão não é apenas conservar ou restaurar. Ele entende que deve existir um uso efetivo, quer como escola, museu ou outra finalidade pública, porque a manutenção requer custos. 

Desafio

Para o também arquiteto Fausto Nilo, o prédio apresenta um desafio, que é exatamente preservar ou restaurar edificações em áreas de declínio. Ele cita como exemplos a Praça dos Leões e o Theatro José de Alencar, ambos em Fortaleza, padecendo de reformas seguidas, mas incapazes de retomar a reabilitação.  
"Imagino uma cidade como uma floresta. Não vamos avaliar apenas a árvore, mas o tronco e até as folhas. Se um prédio está numa área degradada é preciso uma intervenção que reabilite todo o entorno", afirma Fausto Nilo. Com isso, entende que ainda se torna mais difícil quando se imagina dar uma destinação para um imóvel localizado na zona rural do Estado. 

Mitos

Enquanto não se faz nada de efetivo pelo Casarão da Água Verde, o lugar é tomado por mitos. Há quem compare com a mansão de Heathcliff, personagem do romance o Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë. 
Outros afirmam que o lugar reúne fenômenos paranormais e que se trata de uma casa mal-assombrada. Populares acreditam que, em pequenos cômodos, eram alojados escravos e ainda hoje se escutam seus clamores.

Consideração 

"A reforma de equipamentos antigos deve considerar a adequação aos espaços urbanos das cidades". Fausto Nilo - Arquiteto 
"É fundamental que haja uma destinação de valor efetivo para as pessoas, como escolas públicas ou museus" . José Sales - Arquiteto 

Fonte: DN

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