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07 dezembro 2015

REDENÇÃO - População relata tensão e medo

Passaram-se dez dias desde que cinco pessoas, dentre elas dois adolescentes, foram mortas após suposto confronto com policiais militares dentro de uma casa na Serra dos Ventos, Distrito de Antônio Diogo, em Redenção, a aproximadamente 55 quilômetros de distância de Fortaleza. No velório do mais jovem dentre os mortos, um grupo invadiu a cerimônia e pôs fogo no corpo. Na região, a população relata que impera a lei do silêncio: ninguém viu, ninguém ouviu. Também reina o sentimento de indignação: muitos questionam a ação militar e afirmam que dentre os mortos havia três pessoas ilibadas.
A reportagem percorreu a cidade de Redenção, da zona urbana à zona rural. Todos que conversaram solicitaram a não identificação. Na região, há o temor por represálias. "Lá em Boa Fé, onde puseram fogo no corpo do morto no velório, deixaram o aviso que quem falar alguma coisa vai pagar. É uma área muito perigosa, dominada pelos bandidos. Todo mundo aqui tem medo", afirmou uma mulher. Boa Fé é um bairro de Redenção onde impera o sentimento de medo e impotência. Antes do episódio de vilipêndio do cadáver de Marcos Alessandro Acelino da Silva, o 'Praiano', 15, ocorrido no último dia 27, os moradores já haviam vivenciado outra situação de extrema violência. 
Em 17 de agosto de 2014, quatro adolescentes foram levados por homens armados de dentro de uma casa no bairro Boa Fé. Em 1º de setembro daquele ano, os corpos foram encontrados enterrados em covas-rasas em um matagal na zona rural.

Ameaças 

Segundo os moradores, a área foi dominada por traficantes que ditam as regras no lugar, exigindo o silêncio e ordenando mortes, por exemplo. Diante dos avisos de populares, informando da probabilidade de exposição e possível ameaça, a equipe de reportagem, que esteve na cidade em veículo caracterizado, optou por não conversar com os moradores de Boa Fé para preservá-los de possíveis retaliações dos criminosos. 
Já no Distrito de Antônio Diogo, os olhares curiosos rompiam a escuridão das casas de taipa ao verem a equipe de reportagem chegar novamente tão longe, no limite onde é possível acessar com automóvel. O restante do caminho para chegar à casa, cenário das mortes na madrugada de 28 de novembro, só pode ser feito a pé.  
Sob o sol impiedoso, um homem montado em um jumento preparava-se para a subida, que com o auxílio do animal, leva cerca de uma hora. O agricultor lamentava o que o amigo, Pedro Antônio do Nascimento, 55, sofreu naquela madrugada. Para ele, Pedro foi vítima de uma ação equivocada. "Pedro era conhecido por todos aqui. Ele vivia naquela casinha, plantando. Descia, ia ver a família, vendia as coisinhas dele, e subia de novo. Não tinha nada para ter sido morto", afirmou.
Outros moradores daquela região, ressabiados e temerosos, limitaram-se a concordar com o agricultor e enfatizar que, além de Pedro, Raimundo Nonato Coelho de Andrade, 22, e o homem até então identificado apenas como 'Manoel', viviam apenas para o plantio e venda de frutas e legumes. 
"O Pedro e o Nonato praticamente moravam naquela casa, plantando. A terra lá em cima é boa. O outro, o 'Manoel', era 'galego', vinha de Fortaleza para pegar frutos e voltava para vender na Capital", relatou outro homem, que conhecia o trio. 
A quinta vítima morta, a adolescente Jardilene Alessandra de Sousa, 17, conforme os populares seria namorada de 'Praiano' e com ele estaria envolvida em atividades ilícitas. O adolescente 'Praiano', conforme a Polícia, era suspeito de participação em diversos homicídios ligados à disputa pelo tráfico de drogas. Ele era apontado como sendo o matador de um grupo criminoso, responsável pela morte de desafetos da quadrilha.

Tiros 

Segundo os relatos, o jovem de 15 anos desentendeu-se com a Polícia Militar dois dias antes de ser morto, na quarta-feira, 25 de novembro. "Ele trocou tiros com os policiais e fugiu para a Serra. Acabou indo se esconder na casa do Pedro, que era mais distante. Na quinta-feira (26), Pedro desceu e disse que havia um cara armado na casa mas que ele não queria desafiar o rapaz pois tinha medo. Ele disse que ia só pegar as coisas dele e voltar na sexta-feira (27). Mas não deu tempo. A Polícia foi lá e matou ele", relatou uma mulher, que disse ser amiga da família do proprietário da casa. 
Na madrugada de sexta-feira, policiais militares caçaram o adolescente na Serra dos Ventos. De acordo com moradores, várias casas foram revistadas pelos PMs, até chegar ao imóvel onde estavam as cinco pessoas. 
Segundo os relatos dos policiais, eles foram recebidos com tiros quando aproximaram-se da residência. Dois agentes foram atingidos nos coletes balísticos. Um terceiro, acabou ferido em uma das nádegas. 
Conforme os PMs, houve revide e as cinco pessoas acabaram mortas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), foram apreendidos três espingardas de calibres 12, 16 e 32, uma pistola calibre Ponto 40, dois revólveres calibres 32 e 38, 168 munições de diversos calibres intactas, vários cartuchos de calibres diversos e dois carregadores de munição Ponto 40, além de certa quantidade de maconha pronta para comercialização, cocaína, uma balança de precisão, máquinas fotográficas e facas. 

Fonte: DN 

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