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30 agosto 2015

Wesley Safadão. Do erotismo ao romântico: o cancioneiro

Pedra Aguda, em Aracoiaba: marco geográfico na terra do Safadão
Numa de suas músicas de maior sucesso, Wesley Safadão verseja: “Sou sem-vergonha mesmo / sou ciumento mesmo / Pra mim não é defeito, é meu jeito de amar”.
O trecho ilumina uma das temáticas clássicas do forró: 
a do homem que, a despeito de ser um cafajeste, confessa-se devotado ao amor doméstico, nisso não vendo qualquer contradição. Essa aceitação do desvio da norma, porém, sugere um caráter com baixa disposição para a autocrítica. A mulher que trate de se haver com essa fraqueza masculina.

A esse ethos “raparigueiro” e monogâmico, um dos pilares do universo forrozeiro, acrescenta-se a narrativa do “solteiro na balada”, muito presente no cancioneiro sertanejo, e a da superação de um amor rejeitado, explorada amplamente no brega, no pagode e no funk.
Não à toa, em “Camarote”, um dos trabalhos mais tocados de Safadão, alude-se a um fracasso sentimental, que logo vira revanchismo. Na festa, o homem bandoleiro ressente-se do pé na bunda aplicado tempos atrás, mas ainda não superado.
Logo, voluntária ou involuntariamente, o macho aguilhoado decide revidar. Faz isso como sói acontecer com qualquer alma atirada na fossa gordurosa do abandono: encontra outra. Então, passa a desfilar sua recém-adquirida felicidade como uma peça de roupa cara, gerando na outrora amante o sentimento de arrependimento.
Na voz de Safadão, “Camarote” celebra a vingança. Mas uma vingança ingênua, parte do jogo da corte amorosa, em que as posições se invertem constantemente e quem dá as cartas hoje pode estar por baixo amanhã. É essa dinâmica afetiva e precária que o jovem cantor cearense conjura em seus shows.
Mas nem só de bricolagens afetivas vive a música do artista, nem Safadão ganhou esse adjetivo gratuitamente. Há outra faceta do trabalho do artista, igualmente apreciada pelos fãs, sobretudo os masculinos. É a que, num apelo ao machismo e num flerte com a vulgarização da mulher, investe no erotismo e nas manobras sexuais. No palco, é comum ver o músico simular movimentos de coito.
À vulgaridade, no entanto, segue-se um clássico do romantismo forrozeiro, como “Tentativas em vão”. É nessa gangorra de sentimentos, jogando com o baixo erotismo, as virtudes da solteirice e o amor brejeiro, que o cantor vem construindo uma carreira sólida no forró. (Henrique Araújo).
Fonte: O POVO

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