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08 maio 2015

Inquietude por mais diversidade no cinema

Lázaro Ramos
O ator baiano Lázaro Ramos chegou ao Recife em uma tarde abafada de domingo com olhos de inquietação. Na capital pernambucana, para apresentar o longa "O Vendedor de Passados" (do qual é protagonista) na última segunda, durante 19º CinePE, ele varreu a cidade pela janela do carro como quem busca reencontros. É hábito do ator, quando vai à cidade, puxar da memória a efervescência cultural que lhe influenciou a carreira no tempo em que morou no Recife, nos anos 2000, e buscar notícias de bares e outros espaços que já não existem mais - o que costuma arrancar boas risadas dos motoristas de táxi.
Lázaro Ramos não parece estar à vontade na atual fase da carreira. Seus interesses cinematográficos são os mesmos que permeiam a produção pernambucana: a sede de ampliar as possibilidades do cinema, romper com o que é fácil vender e deixar-se guiar por uma ebulição de perguntas. Por que não tentar, ousar, diversificar? "Por que não?", pergunta com insistência a si mesmo. "Estou inquieto o tempo todo. Na verdade, minha vida poderia ser bem mais fácil. Se tivesse escolhido determinado tipo de filme, eu ia estar com o boi na sombra. Às vezes, acho que sou até meio burro por isso", diz, às gargalhadas, enquanto acomoda o relógio prateado no braço esquerdo.
O trabalho de Lázaro Ramos no cinema está no meio do caminho entre o alternativo e o meramente comercial. Seu norte ainda é o teatro de poucos recursos do início da carreira - o mesmo que o ensinou a reinventar-se. "Esse contato direto é a ponte que me alimenta. A inquietação é uma constante que pretendo manter", ele diz. O medo do comodismo tem feito Lázaro Ramos mergulhar em novos espaços na cinema. No momento, ele se prepara para estrear como diretor de uma narrativa urbana no próximo ano, embora siga tocando alguns trabalhos na produção de filmes.
O interesse pelo outro lado do cinema é fruto de uma missão que assumiu há pouco: entender os meandros produtivos, para ajudar na busca de soluções capazes de garantir que a diversidade cinematográfica brasileira chegue ao público. Na entrevista a seguir, o ator fala sobre os desafios na carreira de ator de teatro e as contribuições do inquieto cinema nordestino para o panorama brasileiro.
Você saiu de Salvador, morou um período no Recife e agora está no Rio de Janeiro. Esse processo de migração foi necessário para a sua carreira de ator ou uma escolha pessoal?

Eu não queria ir embora. Estava muito feliz e satisfeito em Salvador com o meu grupo de teatro, o Bando de Teatro Olodum. Estava em um momento, inclusive, de entrada na produção do grupo e chegamos a fazer uma turnê no Nordeste. Achava que ficar na minha casa era uma função muito importante, para fortalecer a cultura do meu lugar, com aquele grupo que falava de coisas importantes. Era um grupo de teatro de atores negros que estava conseguindo produzir constantemente e falar das nossas questões. Mas pelo convite que recebi do João Falcão, para participar do espetáculo "A Máquina" (de Adriana Falcão), eu achei que seria muito interessante ter contato com esse diretor e com essa história. Então, pra mim, era pra sair de Salvador, fazer essa peça em Pernambuco e voltar pra casa. Era só isso. Mas a gente fez a peça em Recife e depois foi fazer no Rio de Janeiro. Era um período em que estavam sendo produzidos muitos filmes, e meu perfil de ator se encaixava muito naquilo. Era um momento em que vários cineastas estavam curiosos por um Brasil não oficial, por personagens que não tinham um rosto padrão. Então, em três semanas que a peça ficou em cartaz, fiz muitos testes e passei em todos. E aí aconteceu que, em um ano no Rio de Janeiro, eu fiz "As Três Marias", "O homem do ano", "O homem que copiava", "Madame Satã" e "Carandiru". Aí fui ficando. Só depois assumi que tinha que dar esse passo (de sair de Salvador), mas a vontade inicial era de ficar lá. Depois a gente descobre outras funções e outros quereres pelo fato de ter saído da nossa terra.
Você trabalhou com o diretor cearense Karim Aïnouz, no filme "Madame Satã". Além desse trabalho, você tem contato com a cena cinematográfica cearense?
Eu tenho acompanhado, e agora há um projeto ótimo no Centro Cultural Dragão do Mar, que tem cursos e residência envolvendo o Karim, o Marcelo Gomes e o Sérgio Machado. Um pernambucano, um cearense e um baiano que passam um ano inteiro dando oficina. Isso é importantíssimo. Eles estão criando ali um núcleo de pensamento cinematográfico que vai dar ótimos resultados em médio e curto prazo. Tenho visto vários curtas interessantes, vários roteiros ótimos que espero que consigam ser viabilizados. Esse projeto do Ceará é uma lição para outros Estados e outras cidades do Brasil.
Você já externou o fascínio pela inquietação do cinema pernambucano e mesmo essas iniciativas na cena cearense. Que contribuições a produção nordestina tem dado ao audiovisual brasileiro?
Tem levado inquietação e tem conseguido mostrar que é possível contar histórias de um Brasil mais plural, no sentido dos gostos, mas também dos estilos e das temáticas. Isto é o que eu vejo nos filmes nordestinos: uma sede que é necessária, porque senão a gente vai ter um cinema cada vez mais estéril. Os nordestinos são grandes pensadores, trazem uma diversidade importantíssima e, às vezes, com pouquíssimos recursos. Essa é que é a grande pena que eu acho, porque tinha que chegar mais grana. Os caras precisam de investimento porque esse cinema é importantíssimo. Eu costumo me fazer uma pergunta: "Qual é o cinema que ainda deve estar aí vivo e importante daqui a dez anos?". Sempre tem filme pernambucano na minha lista.
Você agora começa a se dedicar mais à produção e pretende começar a dirigir. De onde vem essa vontade de mergulhar em uma mudança de função no cinema?
Depois de fazer muito cinema - e eu tenho muitos filmes -, vai dando uma vontade de entender mais e de contribuir. Às vezes, o pensamento artístico se distancia demais do pensamento de produção. Então, quero tentar entender como esses dois processos podem se juntar. Quais são os novos mecanismos de produção, de propagação dos nossos filmes. Estou fazendo isso porque acho que é um caminho natural na minha vida mesmo. Já tenho feito direção no teatro, e acho que o meu caminho é esse mesmo. Como ator, já fiz tantas coisas que acho que contribuirei mais para a minha arte se eu continuar com a minha inquietação. Fazer só uma coisa me causa certo tédio, e eu acho que a direção vai me tirar de uma possível acomodação.
Você tem levantado questões sobre a importância de diversificar a produção e fazê-las chegar ao público. Que missão você assume no cinema brasileiro com esses novos papeis?
O filme brasileiro que mais fez público nos últimos tempos é o "Tropa de Elite 2", que teve 14 milhões de espectadores. É pouco. Nós somos 200 milhões de habitantes e tem muita gente que não vai ao cinema. As comédias têm feito um público substancial, mas a minha preocupação é como a gente vai fazer com que públicos diversos acessem outros filmes. A gente precisa entender os mecanismos pelos quais vamos fazer com que os nossos filmes cheguem ao seu público. Aí é o que? É o tempo que fica em cartaz? É a quantidade de salas que a gente tem no Brasil? É saber que o cinema não se conclui apenas na sala de exibição, então a gente tem que fazer ele ser acessível na internet e na televisão? Acho que a gente precisa ficar mais incomodado com isso. A fórmula que temos não está sendo eficiente; a missão é encontrar novas fórmulas. Eu não tenho respostas, tenho inquietação e a vontade de entender isso, por isso estou indo para a produção.
Fique por dentro
Longa-metragem escapa às classificações
Quando o diretor Lula Buarque de Holanda apresentou, pela primeira vez, o seu mais recente longa-metragem, em Portugal, ficou surpreso com a reação do público. As gargalhadas durante a primeira exibição de "O Vendedor de Passados" - e que se repetiram no CinePE - poderiam enquadrar o filme como comédia - o que nunca foi uma pretensão do diretor. De qualquer forma, o longa escapa das classificações de gênero. Para alguns, pode até mesmo parecer comédia. Para outros, romance, drama, suspense, não importa. É fato que "O vendedor de passados" deixa uma série de questões simbólicas abertas e leva o espectador por um mergulho nas memórias que de alguma maneira gostaríamos de reconstruir. Livremente inspirado no livro homônimo de José Eduardo Agualusa, o filme é trazido ao universo brasileiro e, além das histórias dos protagonistas, Vicente (que vende passados) e Clara (que busca comprar um passado com uma única condição: a de ter cometido um crime), acaba por mergulhar nas memórias de um Rio de Janeiro que escapa dos cartões postais. O filme deverá estrear nacionalmente no próximo dia 21 de maio.
Beatriz Jucá*
Enviada a Recife
*A jornalista viajou a convite da produção do Cine-PE
Fonte: DN

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