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02 março 2015

"O Ceará gasta demais em saúde", diz secretário Carlile Lavor


médico Carlile Lavor integrou o movimento que levou à criação do Sistema Único de Saúde. Nunca teve plano de saúde particular. Mas, se preciso, recorre ao atendimento privado. Ao conversar com O POVO, em 20 de fevereiro, estava com o pulso direito imobilizado - suspeita de tendinite. Na véspera, gastou R$ 790 com ressonância magnética. Despesa eventual que considera mais barata que o pagamento fixo.
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Militante da causa do SUS, Carlile defende que o sistema mude. Que cubra menos especialidades - o essencial - mas para todos e com qualidade. Secretário da Saúde do Ceará pela segunda vez, também quer mexer no que foi sua marca, há 28 anos: defende a transformação do papel e da formação dos agentes de saúde. Mas, ao responder ao deputado Heitor Férrer, formulada a pedido do O POVO para as Páginas Azuis, disse que não considera necessário gastar mais em saúde - ou em doença. É hora de usar melhor o que se tem.

O POVO – O senhor não tem plano de saúde? 
Carlile Lavor – Eu tenho o SUS (Sistema Único de Saúde), que é o maior plano do Brasil. Eu defendo o SUS há quantos anos? E que defesa seria essa se eu fosse para outro plano? Eu acredito ou não no SUS? Minha família tem plano particular. Meus filhos e minha esposa, porque têm medo. Minha mulher usou muito já, esteve em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Ela usa muito mais, sempre tem exame, como a mamografia. 


OP -
 O senhor já fez alguma cirurgia ou procedimento pelo SUS?
Carlile - Fiz uma ressonância magnética, particular, por R$ 790. Mas o plano é mais caro. Com mais de 70 anos então... A parte de exames até tem, mas dá muito trabalho. Se a gente quiser um médico bom, tem de esperar uns seis meses para conseguir vaga. Eu nunca tive outro plano de saúde e as pessoas perguntam: "Mas se o senhor tiver algo mais sério?". Não tenho medo de morrer. As pessoas morrem.

OP - Como secretário, o senhor acha seguro que as pessoas não tenham plano de saúde particular?
Carlile – O que eu defendo, e é isso que estou conversando com os prefeitos vou conversar com o governador, é que o SUS não dá conta de tudo. Nem os planos de saúde dão. O que se tem na saúde, hoje, é muito caro, sofisticado. A ressonância magnética, por exemplo, é um espetáculo, mas é muito cara. Não está ao nível do Brasil e do Ceará ter tudo. Nem os Estados Unidos, que gastam 15 mil dólares per capita por ano com saúde. E isso é mais do que toda a renda brasileira. Para se ter uma ideia, hoje existem 70 especialidades médicas e não tem como oferecer tudo. Mas umas 20 é possível ter. E para todas as pessoas. Porque isso acabaria com a angústia de as pessoas chegarem ao pronto-socorro e não ter pediatra, clínico geral, obstetra, cirurgião, traumatologista e anestesista, por exemplo. Isso dá para o SUS pagar. O Congresso Nacional, anualmente, define o orçamento. Então, deve dizer o que pode ser colocado à disposição de todo mundo. Mas que seja para valer, que todos tenham direito àquilo e com qualidade, para que as pessoas não precisem ter outro plano de saúde.

OP – O SUS conseguiu viabilizar a reforma sanitária, mas ainda com a lacuna da questão preventiva, dando privilégio ao atendimento hospitalar. Mudar essa lógica ainda é possível?
Carlile – É um desfaio que a gente tem de fazer. Nós temos dois modelos, hoje, importantes: o sistema universal de saúde, que é o que tem na Europa, Canadá, Japão, com atendimento para todo mundo. E o modelo americano, que é um modelo individual, onde cada um gasta com a saúde o que acha que deve. Os nossos professores aprendiam Medicina na França, no século XIX. A partir da década de 1940, o americano assumiu o comando. Um dos primeiros grandes hospitais, o Hospital Getúlio Vargas, e o Hospital Universitário de São Paulo, da USP, já nasceram com os professores se formando nos Estados Unidos, com o modelo americano. Hoje, praticamente toda a nossa formação segue esse modelo, apenas um ou outro vai para a Alemanha ou Inglaterra. 

OP – Com a diferença de que nós não temos o mesmo dinheiro.
Carlile - As revistas, a tecnologia, tudo é americano. Até as revistas francesas, que defendem tanto a língua, hoje publicam em inglês. Mas existe no Brasil, hoje, nas universidades, pessoas que sabem e estudam saúde pública, que procuram um modelo novo. O Ceará foi pioneiro e criou o primeiro instituto de medicina preventiva do Brasil. Mas em 1964, se confundiu muito comunismo com comunidade e comunitário. Como o presidente do instituto, o doutor Joaquim Eduardo Alencar, tinha visitado a China, a Rússia, as pessoas diziam que ele podia ser perigoso. Ele saiu do Brasil, ficou preso e os laboratórios foram desmontados. Então se criou um medo de se fazer saúde pública, de se fazer medicina preventiva. E foram 20 anos de atraso. Eu mesmo fui para Brasília, porque as coisas no Ceará estavam se acabando. Fiquei 10 anos. Embora fosse o centro do poder, era uma universidade experimental (a UnB), então conseguimos juntar gente do Brasil inteiro e fizemos um novo modelo de saúde.

OP –
 Neste mês de março, faz 28 anos desde que o senhor foi secretário da saúde do Ceará pela primeira vez. Naquele tempo o SUS não estava estruturado. Como foi aquele momento?
Carlile – Em 1985, quando houve a eleição de Tancredo Neves, depois de 20 anos de ditadura, os sanitaristas começaram a pensar em para quê a democracia serviria em relação à saúde. Então nos organizamos para fazer um sistema de saúde que atendesse todas as pessoas, era o chamado grupo da reforma sanitária. Fizemos um congresso no Ceará para discutir isso. O Paulo Marcelo Martins Rodrigues era o presidente do setor médico aqui e juntou sindicatos, associações profissionais, alguns professores de universidade, associações da igreja. Foi em 1986, em um congresso nacional, com cinco mil pessoas, que foi definido o Sistema Único de Saúde (SUS), para todos e público. Claro houve grupos minoritários que queriam estatizar tudo, medicamentos, clínicas... Mas a essência era um sistema público de saúde universal. Isso é o que foi aprovado e foi para a Constituição Brasileira. Quando assumi aqui no Ceará, em 1987, o Estado era paupérrimo. O que dava para fazer era prevenir a morte de crianças. Mais de 100 morriam em cada mil que nasciam. Era uma vergonha, porque no mundo inteiro eram 10 mortes para mil nascimentos. E melhorar isso era possível mesmo com pouco dinheiro. Apresentamos ao Tasso (Jereissati, governador na época) e ele topou. Foi aí que nasceu o programa Agentes Comunitários de Saúde. Os pediatras ajudaram muito, normalmente, eles são os que mais se aproximam da saúde pública, porque é onde a prevenção mostra mais resultados. 

OP –
 O que mais mudou daquele tempo até hoje na saúde do Ceará?
Carlile – Primeiro o Brasil ficou bem mais rico e o Ceará também. Naquele tempo o dinheiro do Ceará era pouco. Como a inflação era muito alta, apresentei o Programa de Agentes da Saúde em dólar. Iria custar US$ 6 mil. Era pouco dinheiro. No ano passado, o SUS do Ceará gastou R$ 6 bilhões. Outra mudança importante é que temos muita gente formada. Naquele tempo, o Interior do Estado devia ter 50 enfermeiros. Mas também cresceu muito a ideia da medicina privada e cara. A Faculdade de Medicina de Sobral cobra R$ 6.500 reais por mês, por aluno. Imagina o que é um aluno que paga isso. Quanto ele vai querer ganhar? E o pai que está investindo naquilo? Essa ideia de ganhar muito dinheiro com a medicina está na cultura hoje dos estudantes, de que médico tem que ganhar muito dinheiro. Na minha turma devia ter duas pessoas com carro, ou três. Hoje, se o médico ganhar R$ 15 mil ainda não dá para pagar tudo o que ele quer. Eu acho que a gente precisa retomar e estou aproveitando os meus 74 anos pra ver se eu faço isso: tentar reagrupar as pessoas que pensam em saúde pública. Porque tem muita gente hoje.

OP –
 Como aquele movimento de 85?
Carlile – Isso. O Ceará hoje tem mil mestres em saúde pública, com mestrado em saúde pública. E tem um grupo bom com doutorado. É preciso juntar essas pessoas. Esse é um desafio e eu estou animado para fazer. Estou sentindo uma boa receptividade de muitas pessoas que querem ajudar. Outra coisa importante é o estresse do sistema de saúde. Você tem hoje prefeitos e secretários de saúde estressados porque têm de fazer mais coisas do que o dinheiro dá. O SUS criou uma expectativa de que pode fazer tudo em todo mundo. Só que não pode. Tem de ser universal, gratuito, igualitário... Mas não dá para fazer tudo que o americano faz. Esse ano a gente vai ter uma conferência nacional de saúde, como a gente teve em 1986. Então eu quero discutir o que o SUS pode oferecer de verdade, pra todo mundo, e de forma decente. E não querer fazer tudo e fazer para alguns. Na quarta-feira de cinzas, um prefeito me ligou, dizendo que queria trazer de helicóptero uma pessoa que enfartou. A gente pode fazer isso para todo mundo? Não. Hoje, a Polícia tem sete helicópteros, três muito equipados, com turbinas a jato, que podem transportar dois pacientes deitados. Mas a gente não tem dinheiro para atender todo mundo. Se cada enfarte que tiver no Interior a gente mandar o helicóptero, haja dinheiro. Não tem como fazer isso. Que é importante para um momento de segurança, uma catástrofe, sim. Mas dizer que tem todo enfarte, todo AVC tem um helicóptero para lhe buscar... Não tem.

OP – Os secretários falam muito que a saúde acontece no município. Essa relação interfederativa de responsabilidade poderia ser um apoio para que a oferta fosse maior?
Carlile – O Ceará organizou consórcios regionais. Já me reuni com três consórcios. Iguatu foi o primeiro, depois Sobral e Limoeiro do Norte. O que eu estou propondo aos prefeitos é que a atenção básica seja do município e a especializada seja do Estado. Mas que seja oferecida na região. Aquelas especialidades do SUS, que há dinheiro para oferecer, que sejam oferecidas em cada uma das 22 microrregiões. E nenhum doente venha do interior para Capital, a não ser quando for câncer, porque não dá para ter um tratamento para câncer em cada região. Mas todo o resto, o dinheiro que eu gasto em Fortaleza para tratar, que trate na região. Em vez de transportar esse monte de gente pra Fortaleza, que o dinheiro de Fortaleza seja aplicado nas 22 microrregiões. E eles estão animados com isso. Então eu proponho que o dinheiro da atenção especializada seja do Estado, mas gerenciado pelo consórcio dos prefeitos. Os prefeitos que vão cuidar do hospital regional, que faça tudo que a gente faz hoje em Fortaleza.

OP – Que seja oferecido um atendimento mais básico, mas que esteja em todo lugar?
Carlile – Nas regiões, porque eu também não posso ter em cada cidade um cirurgião e um traumatologista. Mas na região com certeza dá. Porque o dinheiro está sendo gasto aqui em Fortaleza. Mas, em vez de gastar aqui, gasta na região. O mesmo dinheiro. Você economiza transporte, leva para o interior uma porção de médicos e enfermeiros, que vai melhorar a vida no interior do Estado.

OP –
 Uma coisa que o senhor mencionou foram os agentes comunitários de saúde. Que não tinha dinheiro na época, então você tinha e equipe e não precisava ter estruturas. Era uma forma de economizar, no atendimento de casa em casa. Hoje existe outro momento. Da estruturação de Upas, policlínicas, hospitais regionais. Como o senhor vê a transformação dos agentes que virou PSF por todo o Brasil. E qual é o papel do PSF, hoje, nessa nova estrutura, como se articulam? 
Carlile – No ano passado eu estudei muito a função dos agentes de saúde no mundo. Passei sete meses na África ajudando o Ministério da Saúde a implantar e regulamentar um sistema de agentes de saúde em Angola. Tive de estudar muito como o mundo fazia. Vi que nos Estados Unidos estão usando, nos hospitais, os agentes de saúde para ajudar diabéticos. Porque é uma doença complicada o diabetes. Aparentemente, você não sente nada de início. Consegue tratar, mas é uma doença que tem uma evolução que, se você não cuida, vai perder um rim e passar por hemodiálise, perde a retina e fica cego, perde um pé... É uma doença que tem um fim muito triste se você não cuidar. E precisa de uma educação muito forte da pessoa. Muitas vezes é uma criança ou um jovem que se torna diabético. Esses conhecimentos os agentes podem levar para a família. Também não é só chegar com o conhecimento, muita gente acha que cigarro é ruim, mas entre achar que é ruim e deixar de fumar, tem toda uma evolução. Isso o agente de saúde faz em casa, um acompanhamento de como a mãe deve cuidar melhor do filho. Aquelas coisas que a gente fez em 1987, como trazer a mãe pro pré-natal, vacinar as crianças regularmente, cuidar da higiene da casa e das crianças, dar de mamar. Eram coisas difíceis. Isso os agentes fizeram naquela época. Hoje são outras doenças. É o diabetes, a hipertensão, o câncer... É a atividade física, a obesidade. A droga, que é uma das nossas maiores doenças. O agente de saúde sabe todo mundo que usa droga, e sabe quem é o vendedor. Mas não está preparado para isso. Ele só foi preparado no início, fez um curso ou outro. Mas não foi preparado agora. E é isso que nós vamos fazer, retomar um curso que em 2003 e 2004 foi definido, que é o curso técnico dos agentes de saúde.

OP –
 Preparar o agente de saúde para ter uma função diferente da que tinha na década de 1980?
Carlile – Porque hoje praticamente não precisa dizer mais a ninguém que precisa vacinar, a não ser uma família ou outra que ainda não vacina. Que precisa fazer pré-natal, hoje é exceção a mãe que não faz pré-natal. Hoje o agente de saúde para isso não precisa mais. Ou precisa muito pouco, como no caso do sarampo, agora, que uma ou outra família ficou sem vacinar. Precisa ter para isso, mas o grande trabalho dele hoje é com essas outras coisas. É o motoqueiro que anda sem capacete, é a família que o adolescentes está entrando na droga e não cuida ou a criança que não está indo para a escola... São essas outras coisas que o agente de saúde tem que fazer. 

OP – Em relação à articulação com os hospitais. O Ceará nunca tinha construído hospitais estaduais no Interior e agora começa a estruturar essa rede. Grande e cara. Como o senhor vê essa relação custo-benefício. Qual impacto terá, até no objetivo de não precisar vir pra Fortaleza?
Carlile – Um grande esforço que a gente vai ter que fazer é para formação de pessoal, de recursos humanos. Hoje, metade dos médicos não completa sua formação. Hoje todo curso de medicina prepara o estudante para fazer uma especialização, uma residência. O mundo todo sabe o que é isso. O médico terminou o sexto ano, tem que fazer dois, três, cinco anos de residência. No Brasil, ou melhor, no Ceará, nós só temos vagas de residência para metade dos médicos. Nós formamos 800 médicos por ano e só temos vagas para 400 residentes. Isso é um desastre hoje para a medicina, no Ceará. Metade não está se formando. Têm o diploma de médico, mas não estão formados devidamente, que é o que a residência faria. Esse é um desafio muito grande. Os hospitais, as novas estruturas, as policlínicas, são importantes para que a gente use na formação de pessoal novo. Hoje já é difícil você encontrar um pediatra. Aqui em Fortaleza, achar um pediatra é uma complicação, mesmo nos planos de saúde. Então a gente tem que formar, em larga escala, dobrar a formação de especialistas. Todo médico precisa de espacialização. Mesmo o médico de família. O médico de família não é o recém-graduado, ele tem que ter três anos de residência. Hoje nós não temos nem 10% dos médicos de família com residência.

OP – O Programa Saúde da Família (PSF) precisa de especialistas?
Carlile – Claro, é uma especialidade como outra qualquer. Só que em vez de se especializar em uma determinada parte do corpo humano (no pulmão, no coração, ossos, olho) ele é um especialista no conjunto. Não só no conjunto da pessoa, mas conjunto da família e da comunidade. Muitas doenças hoje derivam da comunidade: o esgoto que não está arrumado, a água que não está tratada, o trânsito que não está bom e as pessoas se acidentam muito. Ou é a violência ou a escola que não está boa. Tudo isso tem relação com a saúde. Então o médico da família tem que ver esses aspectos todos da comunidade.

OP – Não chegam a 10% os médicos residentes no Saúde da Família?
Carlile – Não, não chega. E isso é uma vergonha. E aí se paga muito mal, porque realmente eles não estão preparados para isso. Temos de formar em larga escala, realmente. E não é num prazo curto. São três anos de residência, para o povo do Interior, como é que eu vou trazer esse povo? Então temos que encontrar formas alternativas de formar os que já estão trabalhando, porque é difícil já estar trabalhando e ter que voltar pra fazer. Mas os novos têm de fazer residência, ou saúde da família, pediatria, clínica médica, ou outra especialidade. É uma que o Estado tem que mostrar isso: olha, esses são os médicos qualificados e esses não são. Isso é o que nós estamos mostrando para os prefeitos e eles estão interessados. O médico qualificado e o não qualificado, o prefeito não conhece e paga igual. Então porque eu vou estudar se paga igual? Aí vão fazer outras especialidades em que são reconhecidos como mais qualificados e ganhando mais. E quanto mais aparelho usar, mais dinheiro ganha. O pediatra o e clínico, clínica médica, que não usam quase aparelho, são desvalorizados, do ponto de vista do SUS e dos planos de saúde também. Plano paga R$ 50 numa consulta por um clínico ou pediatra que tem que passar uma hora ou duas em uma consulta. Você vai numa clínica de oftalmologista, ele rapidamente faz a consulta. Mas num clínico ou num pediatra, é uma consulta longa, tem que voltar várias vezes. SUS tem que valorizar essas especialidades que gastam pouco dinheiro e que dão mais resultado. Dão diagnóstico, tratamento.

OP –
 Essa questão do financiamento das estruturas é uma questão que, antes mesmo de tomar posse, o governador Camilo demonstrou preocupação. Qual cenário que se tem? Porque ele disse que ia discutir o repasse federal? Com quanto que o Estado entra? Isso estaria um pouco descompensado?
Carlile – O que está construído é importante demais. Eu visitei Sobral e Cariri, que são os dois grandes hospitais novos, e o Quixeramobim, que está quase pronto. São estruturas muito bonitas, boas. Sobral, por exemplo, o hospital fez mil neurocirurgias no ano passado, 400 doentes da região de Sobral e 600 doentes de Fortaleza, do Cariri, foram levados a Sobral. Um avião todos os dias leva e traz 15 médicos a Sobral. É um hospital super. Eu visitei-o e a Santa Casa de Sobral, uma instituição que tem 90 anos. Cheia de gente. Enquanto um hospital (o regional) supertranquilo, uma grande área, pessoas muito bem arrumadas, você não vê aglomeração. Na Santa Casa, aquela quantidade de gente. Quantas mães para ter menino ali, parto no corredor, aglomeradas. Pouco espaço, equipes trabalhando, muito boas, mas apertadas no espaço. E depois fui ver um terceiro hospital de Sobral, que é o Dr. Estevam. Padrão África ou pior. Doentes mentais estão lá nesse hospital. Do século passado. Então, quer dizer, em uma mesma cidade: um superhospital, com que há de mais moderno, um hospital tradicional, a Santa Casa, 90 anos, cheia de doentes, precisando de um espaço melhor. E outro hospital com padrão medieval. Aí fui ao Cariri. Também. O hospital de Juazeiro novo, belíssimo. Fui ver o hospital materno, de partos, o São Lucas. Uma estrutura física precisando melhorar muito. Fui ver o hospital São Vicente de Barbalha, pra mim o melhor do Ceará. Há 45 anos, foi feito por uma alemã, que estruturou o hospital. Para mim o hospital melhor, com mais organização, pouco recurso, atende muito bem. Atende a câncer. Praticamente, o hospital do Interior do Estado que faz tudo em câncer. Mais humanizado que eu conheço. E com pouco recurso. Fui ver em Quixadá, hospital da diocese, Jesus, Maria e José. Metade dos leitos desocupados. Hospital também de um padrão muito bom. Estão muito desiguais as coisas. Mas pelo menos já tem muita estrutura construída e equipada. A gente pode usar largamente isso para formar novos especialistas, médicos, enfermeiros de bom padrão. É possível aproveitar isso tudo. Estão ali os dois hospitais: Juazeiro e Sobral. É um grande investimento, Quixeramobim também está quase todo equipado. Nós temos de aproveitar essas estruturas e correr para ter um atendimento mais descente para as pessoas e para formar mais gente. Nós precisamos de muita gente para a saúde, médico, enfermeiro, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional... O Ceará tem hoje 110 escolas técnicas, precisamos formar muitos técnicos. A saúde precisa de muitos técnicos. E tem toda uma estrutura de escolas feita, só precisa formar. A saúde tem que dizer pra Secretaria de Educação: “Nós precisamos de tantos técnicos em tomografia, laboratórios”. Para que as escolas formem. É para isso que estamos trabalhando com a Secretaria de Educação, para dizer quantos técnicos temos que formar. Nós precisamos de muitos técnicos, mas também saber quantos, para não estar formando à toa. Saber quantos técnicos eu preciso para fazer exame de citologia no colo do útero... É essencial. Quantos eu preciso formar para manejar um mamógrafo... Isso tudo tem escola para isso, nós precisamos organizar isso tudo para fazer com que todas essas estruturas funcionem muito bem.

OP – O Governo Federal dá apoio?
Carlile - Dá algum apoio, mas não é o que o Ceará espera. O Ceará, quando construiu esses hospitais, esperava receber muito mais do Governo Federal. Mas o Governo Federal também tem suas limitações. E hospital de alta qualidade como o Ceará fez, o Governo Federal não está apoiando. Hoje, o Governo Federal criou uma empresa para cuidar dos hospitais universitários, a EBSERH, que tem 29 hospitais. No Ceará, só um hospital. Eu acho que nós temos grandes hospitais de ensino. O grande hospital de ensino hoje é o IJF e o Governo Federal não entra com nada. O grande hospital de ensino em Sobral é a Santa Casa e o novo hospital. E a Faculdade de Medicina do Governo Federal entra com muito pouco. Eu Juazeiro, Barbalha, temos outra escola de Medicina, do Governo Federal. Quase nada de dinheiro federal entra naquela faculdade. Quando você vai a Porto Alegre, os grandes hospitais são mantidos pelo Governo Federal. Você vai a Belo Horizonte, os hospitais de ensino são mantidos pelo Governo Federal. Então os grandes hospitais de ensino do Ceará, eu acredito que o Governo Federal tem de participar mais, porque são hospitais de ensino.

OP – O senhor falou em dar prioridade à seca, em função do ano que vivemos. O hospital de Quixeramobim já está quase pronto. Os outros hospitais, como o de Jaguaribe, o senhor acha que podem esperar? 
Carlile – A gente conversou com alguns prefeitos de Limoeiro, a região onde será construído. Eu acho que é importante planejar o hospital, porque é uma área realmente pobre, de leitos, de organização de hospitais. Tem de ser muito bem planejado, para fazer o que é mais necessário, nessa ideia que estou expondo: de que aquilo que o doente do Interior vem fazer aqui, que faça lá. Porque evita o transporte, deixa mais perto da família, hospital muito grande não é bom- quem vai ao HGF e IJF vê que não está bom, aquele aglomerado de gente... Era bom que boa parte dos doentes ficassem lá. Acho importante construir, agora, vamos ver como construir, o que é mais necessário.

OP – Deve haver outros, além de Jaguaribe?
Carlile – Acho que o de Jaguaribe é importante, que já está projetado. Precisamos estudar melhor com os prefeitos da região o que de fato, mesmo que não se construa com todo o volume projeto, mas que se construa em parte. O de Quixeramobim eu acho que é importante que comece a funcionar, sabendo que áreas são importantes ali. Aproveitando o hospital de Quixadá, já tem 80 leitos prontos. Então, praticamente os doentes daquela região não precisariam vir para Fortaleza. O que estou discutindo com os prefeitos do Interior é que o mesmo dinheiro que eu gasto em Fortaleza hoje, poderia estar gastando no Interior. Não aumenta em nada o dinheiro do SUS, só invés de estar gastando aqui, aplicasse esse dinheiro lá.

OP – Teria alguma previsão de outros hospitais? No Inhamuns, por exemplo?
Carlile – Tem uma previsão, a Unilab, que está lá em Redenção, quer fazer uma faculdade de medicina. E é um compromisso do governo do Estado, de fazer um hospital para atender a faculdade de medicina. Os alunos da Unilab são metade da África e metade brasileiros. Eu acho que deveria ter uma construção especial, porque fazer um padrão de hospital tipo o de Sobral e do Cariri, para um aluno da África vir aprender, eu acho que não é bom. Teria de ser um tipo de hospital mais adaptado, que ele possa realmente aprender e aplicar na África. Eu acho muito importante a Unilab formar alunos pra África. Mas tem que ser adaptado. Se for para gastar o que a gente gasta hoje em Sobral, não vai valer de nada. Porque ele aprende aqui e quando chega lá, em Angola ou Guiné Bissau, como ele vai aplicar o que aprendeu aqui?

OP –
 Tem prazo para Quixeramobim?
Carlile – Eu queria ver se esse ano a gente começava. Não todo, com toda aquela extensão, porque é muito dinheiro. Mas pelo menos com esses casos de braço quebrado, perna quebrada, que pudesse resolver isso lá. Clínica medica.

OP – O de Jaguaribe, em Limoeiro, seria para quando?
Carlile – Não sei, estamos quebrando a cabeça para ver isso aí. Aproveitar o que tem hoje. Os prefeitos assumirem essa responsabilidade de identificar a necessidade maior. Esse povo que está na fila não vir pra Fortaleza, fazer isso lá. Mas aí é claro que tem que formar os especialistas, muitos especialistas que hoje estão em Fortaleza podem ir para o interior, se a gente oferecer um bom salário. E boas condições de trabalho, porque também não é só salário. Por exemplo uma experiência boa lá em Juazeiro: está se pagando 20 mil a oito médicos para ficarem em dedicação integral ao hospital, na enfermaria de clínica médica. É uma superexperiência, melhorou muito e barateou o serviço. Você paga muito bem, mas o médico fica ali o dia inteiro. Ele vê o doente realmente. E não ficar um pouquinho em vários hospitais, ganhando mais, mas correndo muito e produzindo muito menos.

OP – Em relação aos médicos do interior, como o senhor vê os Mais Médicos? E o que pode ser feito?
Carlile – A experiência do Mais Médicos ajudou alguma coisa. Passamos de 1,8 mil para 2,3 mil médicos, não é o que se pensa também. Aumentou 500 médicos, num prazo de três anos. É um aumento. Eu não sei se sem o Mais Médicos a gente teria chegado aos 2,3 mil. Foi meio complicada a forma como foi implantado.

OP – A dispensa do Revalida?
Carlile – A dispensa do diploma, a revalidação... Se no modelo que está hoje, a gente já tem grande parte dos médicos sem estar devidamente preparado, você coloca mais médicos sem a revalidação... É um problema. Mas ajudou. Agora estão entrando 500 médicos, parte já era, mas mudou de programa- estava no Provab e passa pro Mais Médicos (200, mais ou menos). Eu acredito que a gente conversando com os prefeitos e pagando melhor aos médicos mais bem preparados, isso é essencial. Pagar melhor a quem estiver mais bem preparado para estimular que eles se aperfeiçoem. Hoje nos países mais desenvolvidos, a cada cinco anos o médico é obrigado a revalidar o seu diploma, pra se atualizar. Aqui você formou-se, pronto, se quiser ficar o resto da vida sem estudar, é médico. Chega na Prefeitura, o prefeito paga igual aos outros. Dessa maneira a gente vai piorando muito a situação, que é o que tem hoje. Hoje está piorando muito a qualidade do médico no interior. Porque você não valoriza a formação. É isso que a gente precisa inverter rapidamente: pagar melhor a quem está mais preparado. Ter uma carreira realmente. É formado tem um salário, mas fez a especialização vai ganhar mais. Depois você continuou aprendendo mais, a experiência médica é importantíssima. 

OP – Como foi a experiência do senhor na África? A realidade que o senhor encontrou lá? 
Carlile – A África vive uma situação duríssima, lembrando um pouco o Ceará de quando eu me formei, há 50 anos, lá em Jucás. Aquelas condições: muito sarampo, pneumonia, crianças morrendo de diarreia. A África é como se fosse o nosso Ceará há 50 anos, o nosso interior, o nosso sertão. Para mim não era muita novidade, porque eu já tinha visto aqui. Mas é realmente uma situação de pobreza muito grande. Para você ter uma ideia, no Ceará, nós perdemos 90 mães em trabalho de parto no ano passado, mais ou menos 80 óbitos maternos por cem mil nascimentos. A Suécia é um óbito por cem mil. Em Angola, eram 1,4 mil óbitos por cem mil nascimentos. É idade média. Mas eles estão melhorando, com certa rapidez também. Porque no que cessam as guerras, porque guerra é a pior coisa. Em Angola, a guerra acabou em 2002 e hoje é muito bom, a evolução é muito rápida. Todo dinheiro do governo ia pra guerra, não pensava em escola, saúde nem nada. Na hora que a paz se estabelece, os recursos passam a ser pra saúde, educação, estrada, agricultura. A evolução é muito rápida. A evolução angolana, de quando eu estive a primeira vez em 2007 e estive o ano passado. O crescimento da economia é feito o crescimento chinês. Mas ainda estão muito embaixo, leva um tempo até melhorar. Mas você vê um progresso rápido. Pra você ver: existe o padrão nosso, o padrão África e o padrão Europa. Uma coisa muito boa em Angola, fala português, cultura do negro, nossa. Foi muito importante a nossa participação. O agente de saúde é importante demais ali. Como evitar a malária, doença que mais mata, como evitar a mortalidade infantil. E essa outras cosias, mortes de acidentes de carro, violência. Hoje a África tem muito carro, portanto, muito acidente também. Tem um número pequeno de médicos e a necessidade de formar muita gente. O governo está investindo, em cada região do país eles criam uma faculdade de medicina. Lá os cubanos estão fazendo um trabalho importante de ajuda, porque o governo planejou muito bem a contribuição dos cubanos, para formar faculdades. Acho até mais importante do que vir para atender, apesar de lá também ter alguns cubanos atendendo. Mas especialmente eles estão formando outros médicos. Achei algo muito inteligente. Acho importante a presença do Brasil, a língua portuguesa, eles gostam muito do Brasil. Acho importa te que o Brasil participe desse processo, não só com ajuda, mas com aprendizado. Eu aprendi muito sobre saúde em Angola, essa relação das pessoas com os serviços de saúde. Estamos a três horas de Cabo Verde. Vamos aprender e ganhar dinheiro também. A China está entrando muito lá.

OP – Qual a opinião do senhor sobre a tendência da administração terceirizada da saúde pública? Para o paciente tem um resultado melhor, mas qual a interferência disso no serviço público, nos recursos?
Carlile – Uma coisa muito ruim que tem hoje são os hospitais com médicos plantonistas, pago por plantão. Aí você não tem um corpo clínico do hospital. Em Juazeiro, o rendimento é melhor, a alta do pacientes é mais rápida. Se cada dia é um médico diferente, é muito pior, demora você diagnosticar e tratar. O pior modelo é pagar por plantões. Mas é necessário. Em algumas áreas o resultado é bom. Em anestesia, pro exemplo, que você não precisa acompanhar os pacientes muitos dias. Mas clinica médica, pediatria, que precisa acompanhar o doente, é muito ruim. A outra cosia é se a administração é CLT ou estatutária. Tem que ser melhor avaliado. Uma coisa ruim do estatutário é o fato de não ter avaliação, trabalhou bem ou mal e ganha a mesma coisa. Precisa melhorar a administração do SUS pública, ter uma melhor avaliação, não só na entrada do profissional, mas permanente. Na Europa, mesmo nos serviços particulares, o médico precisa ser avaliado a cada cinco anos. O CLT é uma experiência boa? Estamos hoje no Ceará com as duas experiências: o CLT, que é o ISGH, cuida do Waldemar de Alcântara, os dois novos hospitais (Juazeiro e Sobral). Estamos avaliando os custos de um e de outro. Hospitais filantrópicos. Conheço um muito bom, em Barbalha, em Quixadá. Tem hospitais filantrópicos muito ruins. Tem hospital publico bom e hospital público ruim. São os dois modelos, tem que comparar. Vê se está funcionado bem. Não é o fato de ser público, filantrópico... Tem que ser analisando permanentemente.

OP – Nessa nova estrutura, qual o impacto da Upa, que deve ser mais imediato?
Carlile – É, você tem um atendimento de urgência. A Upa em Juazeiro, eu visitei sábado. E tem um atendimento, tem médicos e uma coisa boa: na hora que chega você é avaliado se deve ser atendido de imediato ou pode esperar um pouco. Têm quatro ou cinco níveis de risco, isso é muito importante. Normalmente, no saúde da família, os 15 primeiros que chegam são atendidos. Essa classificação para o atendimento é importante. Nas policlínicas, alguns prefeitos estão satisfeitos porque começam a ter especialista na região. Mas precisa aperfeiçoar, ter em mais dias na semana. Às vezes um especialista só tem um dia pra atender a 10 municípios.

OP – Há como mensurar esse dinheiro gasto em Fortaleza que pode ir pros municípios? 
Carlile – O que é a gente quer é ter um per capita para atenção básica, que todo mundo tenha aquilo. E ter um per capita para especializada, que toda região tenha aquela. Tantos habitantes, aquele dinheiro. O gasto nosso o ano passado foi de R$ 6 bilhões, R$ 500 milhões por mês. É muito dinheiro.

OP – O senhor não teve dúvida quando recebeu o convite para ser secretário?
Carlile – Quando eu disse pra minha esposa que o governador me chamou pra ser secretário, ela perguntou se eu lembrava que tinha 74 anos. Eu acho que, como eu me dedico a isso a vida inteira, muitas ideias que a gente tem, se puder pôr em prática, é muito bom. Não tenho muito mais aspirações, a não ser aplicar tudo isso que a gente aprendeu. Uma coisa boa é contar com a confiança dos colegas, há uma expectativa muito favorável com os colegas.

OP – Da outra vez o senhor passou pouco mais de um ano na secretária, mas fez um trabalho muito bem avaliado. Porque foi tão rápido?
Carlile – Minha família estava no interior, eu gosto do interior, estava com uma casa lá. Aqui era um apartamento pequeno, alugado. Lá era uma casa boa, em Jucás. Tinha uma equipe muito bem formada. Equipe que continuou nesses 20 anos. O que eu queria era formar a equipe, estava bem formada, estruturada. Acho que eu podia voltar pra minha cidade, deixar a equipe caminhar.

OP – É um plano pra quando o senhor se aposentar?
Carlile – Estou com a casa ainda no interior, mas o tempo agora tá muito pouco pra eu ir. 

OP – O senhor é o secretário da área que todas as pesquisas no Ceará e no Brasil apontam como a maior preocupação da população. O que o senhor considerará um trabalho bem sucedido, quando deixar a secretaria? Qual sua meta ao final de quatro anos, diante desse desafio?
Carlile – Que a população tenha mais tranquilidade, saber que, se adoecer, será atendida. Não ter que realmente se obrigar a fazer um plano de saúde sem poder. Porque muita gente hoje faz um plano de saúde sem ter condições de dar continuidade ao pagamento, pelo medo de ter uma necessidade e, nessa hora, não ser atendido porque o hospital está cheio demais. Ou não consegue uma consulta... Isso é realmente uma preocupação das pessoas e nós temos que dar tranquilidade para as pessoas: se adoecer, vai ter alguém para lhe atender.
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Fonte: Logo Portal O POVO Online

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