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09 fevereiro 2015

É possível tirar os orelhões do esquecimento?

orelhão
Telefones públicos são alvos de pichações, deterioração e do mau funcionamento
FOTO: FABIANE DE PAULA
Você possui, no mínimo, um celular. Telefone fixo, computador e tablet também fazem parte do conjunto de aparelhos que utiliza para se comunicar. Com isso, há muito tempo, o velho orelhão instalado na esquina de casa ficou esquecido. O mesmo aconteceu com grande parte dos outros 35 mil existentes, hoje, em todo o Ceará. Para a maioria das pessoas, viraram artigos do passado, aos quais só se recorre no momento de desespero, quando não há mais opções.
Mas, no último dia 9 de janeiro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) lembrou não só que os telefones públicos continuam existindo, como também que é obrigação das concessionárias do serviço torná-lo acessível a todos. Foi aberta uma consulta pública para que a população se manifeste a respeito da forma de pagamento utilizada nos orelhões do País. A ideia é substituir os cartões telefônicos e, assim, tornar os aparelhos mais atrativos e modernos.
A tarefa não é fácil. Os orelhões parecem estar com os dias contados. Segundo a Anatel, no Ceará, 35% dos telefones públicos originam menos de um minuto em chamadas. Ao mesmo tempo, a quantidade de linhas ativas na telefonia móvel no Estado chegou a 11.657.610 em 2014, cerca de 680 mil a mais que no ano anterior. A média é de 132 linhas para cada 100 habitantes e o número só cresce.
"A partir do momento em que a população começou a ter acesso barato a um meio de comunicação mais prático, foi natural que os telefones públicos parassem de ser utilizados", destaca Yuri Carvalho, coordenador do curso de Engenharia de Telecomunicações da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Telefonia móvel
"A gente percebe que até mesmo nos locais mais desfavorecidos já existe uma presença significante dos telefones celulares. Hoje, o uso do orelhão acontece mais em caráter emergencial, quando a bateria do celular acaba e a pessoa precisa fazer uma ligação", completa o professor.
A queda drástica da oferta de orelhões no Estado também mostra que o serviço não é mais o mesmo. Em oito anos, conforme dados da Anatel, o Ceará perdeu quase 30% de seus orelhões. Precisamente, 13.960 aparelhos foram desativados entre os anos de 2007 e 2014, fazendo com que o número de telefones públicos em todo o Estado despencasse de 50.429 para 36.469. Hoje, a quantidade é ainda menor. Somente de dezembro do ano passado para cá, outros 1.422 equipamentos deixaram de existir, restando um total de 35.047.
"Realmente, hoje, quase ninguém usa orelhão. Tem gente que nem fixo tem mais, é só o celular. Nem lembrava a última vez que tinha procurado um telefone público, até hoje. E foi só por causa de uma emergência", diz o montador João Rodrigues, ao utilizar um dos orelhões perdidos na Avenida Aguanambi, no bairro de Fátima.
Serviço precário
A mudança nos meios de comunicação, no entanto, não foi o único motivo do desinteresse dos usuários. Para o professor Edson Almeida, do curso de Engenharia de Telecomunicações do Instituto Federal do Ceará (IFCE), a falta de manutenção dos aparelhos também teve sua influência na redução da procura. "A qualidade do serviço, da ligação, é boa, mas vemos os aparelhos danificados, depredados, com mau cheiro. Às vezes, nem o fone está mais no local", destaca.
Em um percurso por várias regiões de Fortaleza, a reportagem do Diário do Nordeste averiguou o estado de conservação dos telefones públicos. Embora mais raros que no passado, os aparelhos ainda podem ser localizados com certa facilidade. Difícil é encontrá-los funcionando. Dos 35.047 orelhões remanescentes no Ceará, 10.259 estão em manutenção.
Deterioração
Na Praça Joaquim Távora, os três orelhões instalados não têm sinal. No restante do bairro homônimo, segundo moradores, alguns foram retirados e nunca chegaram a ser substituídos. Dois aparelhos testados no bairro Aldeota também haviam sido desativados e outros tantos no Centro da cidade se encontravam na mesma situação. Na área, inclusive, o abandono dos telefones públicos é visível. Os equipamentos são quebrados, cobertos de pichações e bastante deteriorados.
Segundo Francisco Aragão, proprietário de uma das bancas na Praça do Ferreira, a decadência do serviço fez com que os cartões telefônicos também se tornassem obsoletos. Hoje, Aragão vende em torno de dez por semana. "As pessoas que ainda compram usam de forma excepcional. Corre o risco de sumir tudo que é orelhão, mas acho que vai ser ruim, porque ainda tem sua utilidade", defende.
Sem volta
O professor Edson Almeida, do IFCE, destaca que, no Interior do Estado, ainda existem localidades que dependem exclusivamente do orelhão como meio de comunicação. "Em geral, são pequenas comunidades onde o sinal das operadoras não funciona", afirma.
Para o especialista, contudo, apesar das exceções, a tendência é que os aparelhos sejam extintos de vez em pouco tempo. "Não dou mais cinco anos com eles nas ruas. É uma coisa que não tem mais como reverter. A não ser os casos daquelas pessoas mais saudosistas que colocam orelhão num bar, por exemplo, virando algo retrô", acrescenta Almeida.
Mais informações
Para saber detalhes sobre a consulta pública da Anatel e solicitar a instalação de orelhões, acesse www.Anatel.Gov.Br. Para pedir o reparo de aparelhos danificados, ligue para o canal de atendimento da Oi Ceará, 103 31
Meta é atingida em Fortaleza
A Anatel estabelece, em seu Plano das Metas para a Universalização do Serviço Telefônico Fixo Comutado (PGMU), que as concessionárias devem disponibilizar orelhões em quantidades definidas de acordo com a localidade. O documento está em vigor desde 2011 e as metas precisam ser cumpridas até o fim deste ano, com o objetivo de possibilitar o acesso de qualquer pessoa ou instituição ao serviço de telecomunicações.
Em geral, devem ser mantidos pelo menos quatro orelhões por mil habitantes nos municípios brasileiros, substituindo a determinação anterior de seis orelhões para cada mil pessoas por setor do Plano Geral de Outorgas de Serviço de Telecomunicações, aprovado em 2008. A mudança, segundo a Anatel, promete beneficiar 37 milhões de pessoas que residem em pequenas cidades do País.
No Ceará, a meta foi praticamente atingida. São aproximadamente 3,99 telefones públicos por mil habitantes. Em Fortaleza, onde existem, hoje, cerca de 10.500 aparelhos e 2,5 milhões de pessoas, a média é de 4,08.
Ainda segundo o PGMU, todas as localidades com mais de mais de 100 habitantes que não são atendidas com linhas telefônicas devem ter, pelo menos, um orelhão, instalado em local acessível 24 horas por dia, com capacidade de originar e receber chamadas de longa distância nacionais e internacionais.
Migração
A Oi Ceará, concessionária do serviço no Estado, atribui o desuso dos orelhões à introdução da telefonia celular "somada à ascensão das classes C, D e E". A empresa informou, em nota, que "a migração do consumo de voz fixa (acesso individual ou telefone público) para voz móvel faz parte da evolução da telefonia em todo o mundo, inclusive no Brasil".
Sobre a falta de manutenção dos aparelhos encontrados pela reportagem, a companhia alega ter feito a substituição de aproximadamente 500 campânulas de orelhões por mês no ano passado. Além disso, a Oi afirma que desenvolve um programa permanente de manutenção dos telefones públicos no Ceará e recebe solicitações de reparo enviadas por consumidores e entidades públicas pelo canal de atendimento da companhia, o 103 31.
Por fim, a empresa acrescenta que a população pode encontrar cartões telefônicos nos mais diversos estabelecimentos comerciais, como bancas de revista, armarinhos, farmácias, papelarias e outros. É possível consultar a lista de revendedores no site da Oi Ceará.
Vanessa madeira
Repórter
arte
Fonte: DN

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